FireFight
Mais de três décadas foram precisas para chegar ao seu porto de abrigo. As marcas, as experiências, as alegrias e as cicatrizes da viagem fazem deste novo projecto uma catarse para o seu mentor, necessária neste período muito específico da sua carreira e vida pessoal. Juntar músicos de várias latitudes, e vizinhos, literalmente, foi a solução encontrada para combater a letargia insular. E conseguiu-o, com um elenco de luxo. «We Are Not Machines», o EP de estreia dos FireFight, editado digitalmente em 31 de Dezembro, apresenta como principal mérito a dificuldade de catalogação. É pesado e melodioso, inquieto e ligeiramente espasmódico, mas sem demonstrar qualquer ponta de snobismo quando olha para si mesmo. Este registo é mais uma luta interior, vencida, do que a tentativa de mexer um milímetro com o eixo da Terra. Até pelo "anonimato" que o seu líder tenta manter, e o desafecto à promoção, tudo concorre para ficar na mesma. No entanto, adivinhamos improvável que a força deste disco não os atire para os palcos, quando menos esperarem.
Os FireFight surgem numa altura em que está sem compromissos com bandas e esteve completamente afastado da música. O que motivou o seu regresso?
O projecto surge a partir de umas composições que tinham ficado latentes desde a época dos Palha d'Aço. No período em que o vocalista Nelson Leal integrou a banda, aproveitámos as suas características para escrever temas mais pesados – já sem tantas influências do punk rock. Entretanto, saí e a banda também acabou pouco depois, ficando os temas sem qualquer uso.
Seguiu-se um período em que fiquei desmotivado com a música, até que achei boa ideia recuperar aqueles riffs. Compus outros, melhorei as músicas e, com a ajuda do Tiago Alves [produtor], iniciei as gravações. Foi sugestão dele procurar um baterista fora da região. Foi assim que o projecto começou a ganhar estrutura. Era imperioso ter ao dispor um baterista de metal com um nível técnico acima do que existe na Terceira. Assim, contactámos o baterista dos GAEREA – ele tinha disponibilidade, fez-nos um preço muito aceitável e o resultado ficou impecável.
Alargando a ideia de ir buscar talento fora da ilha, falei com o Paulo Gonçalves [Fonte, ex-RASGO], vocalista de que sempre gostei pela dicção e timbre grave. Ele também mostrou interesse e gravou as suas partes no continente. Lembrei-me também do meu vizinho e amigo de liceu, Marco Lote.
Foi mais fácil convencer os músicos de fora ou o próprio Lote a participar?
Não, ele é bom rapaz! Adoramos a voz do Lote. Aliás, sabendo agora da sua disponibilidade, tinha-o feito cantar em basicamente todas as músicas. As opiniões mais consensuais em relação ao disco são precisamente dirigidas ao seu desempenho. Conferiu muito valor aos temas e transformou algumas partes que estavam mais "escuras". Já combinámos que, se houver uma próxima oportunidade, será ele a cantar a maior parte.
Não quero deixar de referir também o contributo do Nuno Martins, na guitarra solo e clássica, uma pessoa também da nossa geração e um economista dos mais brilhantes que existem em Portugal – ensina em Oxford, entre outras universidades; tem uma cabeça fora do comum. Sempre tocou muito bem guitarra, fez conservatório, mas não participava numa banda desde os anos 1990. Lembrei-me dele porque o conheço bem e se mostrou disponível. Foi muito interessante juntar esta malta toda.
É frequente subestimar as suas capacidades, mas até toca guitarra e baixo, pelo menos…
Essas perguntas… Acho que não "toco" nem um nem outro! Simplesmente, tenho paixão pela música. Como o pessoal do futebol costuma dizer: tenho dois pés iguais, dois blocos. Não sou nada de especial em nenhum instrumento. Essencialmente, acho que sou bom a construir, a juntar riffs. Como consigo tocar baixo, o processo de composição torna-se, por vezes, mais fluido, uma vez que vou escrevendo em vários instrumentos em paralelo. Como toquei bateria, também tenho alguma noção de como esse instrumento funciona e, assim, consigo criar mais facilmente umas guias, até para não entregar o projecto sem ideias nenhumas aos músicos convidados.
Além disso, escrevi as letras. Faço-as depois de as músicas estarem concluídas, o que é muito importante para mim para conseguir acertar as métricas, sílabas, palavras, e fazer tudo soar mais suave.
Pela questão do anonimato, vamos vê-lo aparecer ao vivo de máscara?
Essa é a parte que queria evitar… A minha ligação aos Palha d'Aço é pública e está mencionada no site dos FireFight. As pessoas acabarão por associar facilmente a minha identidade. A questão de o projecto se apresentar "anónimo", tinha apenas que ver com a tentativa de criar algo um pouco diferente, gerar curiosidade e um certo enigma. Apenas isso. Na verdade, detesto a parte do marketing, detesto falar da própria banda. Esta entrevista é uma excepção, talvez por ser dirigida a uma das poucas publicações alternativas do arquipélago. Na ilha Terceira, pelo menos, o metal está basicamente morto. Em São Miguel, os Morbid Death continuam a trabalhar. Sobre esse assunto, espero sinceramente que se dê aquele ciclo habitual em que certas coisas se tornam moda novamente.
Existem hipóteses reais de se apresentarem ao vivo?
Esta parte é complexa. Foi uma das razões que me levaram a sair dos Palha d'Aço. Todos tinham voz e opinavam. De certa forma, todos "mandavam", mas quando era necessário fazer acontecer, tinha de ser eu a ir na frente, dar entrevistas, porque falava um pouco melhor… São boas pessoas, não os julgo, e continuarei amigo de todos para o resto da vida. No entanto, o contexto de banda implica muito trabalho, agravado pelo facto de só perdermos dinheiro e tempo. Fartei-me dessa parte.
Em relação a tocar na Terceira… Os últimos dois concertos dos Palha d'Aço, um em nome próprio e o outro com os Morbid Death, tiveram as mesmas 70 pessoas. São coisas que desmotivam e frustram. Assim, se calhar a fórmula é mesmo fazer algo mais relaxado, de estúdio, e não gastar tanto tempo e dinheiro em combustível e equipamento. Fiz essa adaptação.
O meu objectivo passa agora por escrever mais alguns temas, mas manter esta toada relaxada e sem pressão de assumir rédeas. A parte "administrativa" não é para mim. A minha personalidade não me permite falar de mim e do meu projecto como seria necessário. Não tenho perfil de "estrela de rock", egocêntrica, que gosta de falar de si e se exibir. Sou muito introvertido nesse aspecto. Gosto apenas de fazer música e que as pessoas a interpretem à sua maneira. Não procuro o elogio.
Mas isso poderá ser extremamente prejudicial para a banda…
Sim, por vezes, corta-nos as pernas e temos de fazer um certo "tratamento" psicológico para ultrapassar esses obstáculos. Há muita gente nesse barco. O importante é encontrar um equilíbrio que nos permita ter uma vida mais saudável do ponto de vista psicológico. Era algo em que não pensávamos nos anos 1990.
Consegue saber se a sua música tem chegado às pessoas?
Nem tive a preocupação de propagá-las nas plataformas digitais. Criei um site rapidamente, pois sou programador, e o que sei é que os acessos não passam da dúzia por dia. O que fiz foi contactar uma ou duas pessoas ligadas ao underground, mas não consigo estar a bater às portas e a insistir para falarem sobre mim. A música está no site. Não consigo mais do que isso, nem sei se quero ou preciso. Tenho este projecto mais por paz de espírito.
De uma outra perspectiva, ter a vossa informação "centralizada" pode tornar-se menos confuso para os ouvintes…
Tudo o que precisam está lá para ler, ouvir e descarregar.
O vosso estado é insólito, quase bizarro, mas eventualmente algum dia vos tirarão da "toca"…
Está longe de ser impossível tocarmos ao vivo, o que também não imagino possível sem a parte da divulgação. Mas ninguém está a fazer isso.
O XI dos Gaerea e o Paulo dos Fonte mostraram-se desde cedo interessados em tocar. No entanto, penso sempre nas habituais 70 pessoas e concluo que não vale a pena. Faz todo o sentido, sim, tocarmos no continente ou noutras paragens. Se houver oportunidades a esse nível, tudo bem. Sei que o projecto tem qualidade, mas o pessoal mais novo tem mais energia, outras vidas. Tenho uma filha para criar e um emprego que exige muito de mim. Obviamente que se tivesse este projecto aos 18 anos, estaria com uma força enorme para fazer tudo e mais alguma coisa acontecer.
A solução neste momento seria aparecer terceiros para ajudar. Não consigo fazer mais do que a parte musical. Já decidi que é nessa que sou razoável. E acabou-se por aí.
Musicalmente, este é o projecto que mais satisfação lhe deu?
Sim, foi de longe aquele em que estive mais próximo dos meus limites técnicos. Tive de dar tudo o que tinha, porque não sou muito dotado e não tocava há muito tempo. Como baixista, já estive em muito melhor forma, pois integrei bandas que tocavam com muita frequência. Assim, fiquei a 60 ou 70% daquilo que já toquei. Como guitarrista, também fiz um esforço grande para chegar aos meus limites, o que não conseguia nos meus outros projectos. A verdade é que se não tens um baterista que vá atrás das tuas "cavalgadas", e da velocidade que consegues imprimir, a música fica limitada. Se eu tocasse mais devagarinho, os meus colegas também iriam atrás. As coisas são assim mesmo. Há bandas que são um bom exemplo de complementaridade. O baterista dos Tool, que é o meu preferido de todos os tempos, transforma tudo num som enormíssimo!
Em suma, em termos do tipo de metal que queria construir, tanto a nível técnico como de expressão vocal melódica e agressiva, foi, de longe, o projecto em que realmente alcancei os meus objectivos. Isso só acontece com pessoas talentosas à volta. Tenho sorte de ter amigos muito talentosos, como são os casos do Lote, da Marta Inácio, do Nuno Martins… São todos muito bons no que fazem, muito melhores do que eu. Fizeram a sua parte lindamente.
E em relação à mensagem?
Sei que em Palha d'Aço ultimamente as letras versavam muito sobre política – aquela atitude contra o sistema. Neste projecto, tenho só uma música ligeiramente dentro desse assunto, enquanto as outras exploram a ideia de uma persona fictícia. Claro que essa persona acaba por ter alguns aspectos pessoais, mas essencialmente é uma identidade à parte.
O tema «White Walker» tem que ver com aquilo que pensamos?
Exactamente. O «Game Of Thrones» é só a minha série preferida de todos os tempos. Esse tema tenta explorar territórios que nunca explorei, nomeadamente no campo da ficção científica. Não sou, nem de perto nem de longe, um bom escritor, mas a ideia era sair da minha zona de conforto.
Dentro do género musical de que mais gosto, são essenciais ingredientes como o death, thrash, um bocadinho de punk, mas também muita melodia. Entendo isso como essencial para criar alguma ilusão de novidade e diferenciação.
Na verdade, a vossa música não é muito fácil de catalogar…
Esse é o maior elogio que posso receber. Acima de tudo, o objecto é criar algo diferente. Passamos a vida a ouvir Iron Maiden ou Metallica, e é difícil desprendermo-nos deles. Deu muito trabalho, mas o EP está aí para quem o quiser ouvir.
Recuperando a questão da persona, em que pontos se pode confundir consigo?
A parte autobiográfica pode estar lá, mas de uma forma subconsciente. Optei mesmo por criar uma entidade independente. Há talvez três músicas que são mais à volta de conflitos pessoais. Qualquer pessoa com 40 ou mais anos pode dizer que já passou por todos, mas são temas que nunca explorei. Sim, tive relacionamentos tóxicos, problemas complicados, mas não é isso que passa directamente para as letras. Essa persona permite-me ter uma história para contar do princípio ao fim. Se se tratasse de uma transcrição directa da minha história pessoal, era impossível condensá-la numa música que fosse interessante ou fizesse sentido. É isso que quero dizer com essa coisa da persona – encontrar um misto de 95% de história inventada com aquele toque de realidade que talvez venha de nós. Sei que muitas pessoas se vão identificar com ela.
Quais, em concreto?
Recuando um pouco, a «Abnegation» é mais sobre política. A «Remanere», palavra que vem do latim e significa "restos", alude aos "restos" traumáticos de relações anteriores - não amorosas, atenção, mas sim de amizade, ou outras quaisquer. A «Premonition» é uma continuação desse ambiente tóxico de relacionamentos complicados, bem como a «Reassurance». A «White Walker» é mais levezinha, e, como já referi, deambula por ambientes mais sci-fi.
FireFight is a heavy metal project from the island of Terceira, Portugal. My humble contributions as guitarist, bassist, and producer brought these six songs to life after the collapse of a previous band. Today, December 31st, 2025, marks 19 years since the passing of my dear father, Manuel Maria da Rosa Duarte. I miss you dearly, Pai. This EP is dedicated to my father and my mother, Maria Ondina Duarte. Both supported my noisy riffs since the age of 14.
Guest musicians include XI_ on drums (Gaerea), Paulo Gonçalves on vocals (Fonte, Rasgo), Marco Lote on melodic vocals (Skar, Next, Absinto), Marta Inácio on melodic vocals (Break, Double Trouble, Coxe, Martha’s Garden, Art Capital), Nuno Martins on lead and classical guitars, and Dário Coelho (Bailinho de Santa Bárbara), along with friends on trumpet and saxophone. Thank you all for your contributions. Without your talent, this would not have been possible.
All guitars, basses, melodic vocals, trumpet, and saxophone were recorded, mixed, and mastered at Waveyard Studio. Tiago Alves, thank you for the immense patience, incredible drive and motivation, talent, and valuable input.
All artwork of "We Are Not Machines" by Paulo Ávila Sousa.
I would like to thank those who contributed to this project in one way or another, despite not being part of FireFight in the long run. Thank you to everyone in Palha d’Aço, where this all started, including Nélson Leal (ex-Anomally), Bruno Pereira, and Vítor Hugo. Thank you as well to Elden Santos (Massacre, Druid Lord, Bleeding Incorporated) and JP (Bleeding Incorporated) for the support and interest in being part of this.